top of page

Dupla Excepcionalidade: quando o alto potencial cobra um preço emocional

Atualizado: há 5 dias

Nem sempre o alto potencial vem acompanhado de leveza.Para muitos adultos com dupla excepcionalidade, a experiência cotidiana é marcada por um contraste difícil de explicar: capacidade acima da média, pensamento profundo, criatividade intensa  e, ao mesmo tempo, exaustão constante, autocobrança severa e uma sensação persistente de não pertencimento.


São pessoas que produzem muito, pensam rápido, aprendem com facilidade. Mas também se sentem cansadas antes do dia acabar, frustradas com rotinas pouco desafiadoras, deslocadas em ambientes sociais e, frequentemente, insatisfeitas consigo mesmas, mesmo quando há reconhecimento externo.


Quando se fala em dupla excepcionalidade, é comum pensar apenas na coexistência entre altas habilidades e outros funcionamentos neurológicos. Na prática clínica, porém, o que mais aparece não é o talento em si, é o sofrimento silencioso que acompanha esse funcionamento intenso ao longo da vida adulta.


Importante ressaltar que Dupla Excepcionalidade, é a junção de um indivíduo com Altas Habilidades ou Superdotação (AHSD), em comorbidade, ou seja, associado ao um transtorno do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e/ou Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas muitos autores já têm defendido que as AHSD podem reforçar certos funcionamentos, como o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) ou Transtorno Depressivo Maior (TDM).


Boneco de madeira articulado sentado sobre um livro, com postura introspectiva, em ambiente interno iluminado por luz natural.

Se você já se perguntou “por que tudo parece tão pesado se eu sou tão capaz?”, este texto é para você.


Por que pessoas com dupla excepcionalidade se esgotam com facilidade


Pessoas com dupla excepcionalidade costumam viver em estado de alta intensidade interna.Pensam muito, sentem muito, percebem muito. O cérebro dificilmente desacelera, e o descanso mental real é raro.

Esse funcionamento intenso está ligado à chamada sobre-excitabilidade, comum em pessoas com altas habilidades: maior sensibilidade emocional, cognitiva e sensorial. Em adultos, isso se traduz em:

  • envolvimento profundo com tarefas e ideias

  • dificuldade de “desligar” a mente

  • alto nível de exigência interna

  • tendência a ir além do limite físico e emocional


O problema não é a intensidade em si, mas a tentativa constante de se adaptar a ambientes que não acolhem esse ritmo. Para funcionar, muitas pessoas passam a compensar o tempo todo: se esforçam mais, entregam mais, se cobram mais. Com o tempo, esse ciclo cobra um preço.


Não é raro observar a sequência: hiperfoco → alta produtividade → esgotamento → culpa por não render → novo ciclo de esforço. A exaustão, nesses casos, não é sinal de fraqueza  é consequência de um sistema funcionando sem pausas.


Autocobrança, procrastinação e síndrome do impostor


Entre adultos com dupla excepcionalidade, a autocobrança costuma ser um traço central.Não se trata apenas de querer fazer bem feito, mas de um padrão interno rígido, inflexível e difícil de satisfazer. Mesmo quando os resultados são bons, a sensação é de que “ainda não é suficiente”.


Essa autocobrança extrema costuma caminhar junto com dois fenômenos comuns: procrastinação e síndrome do impostor.


A procrastinação, nesse contexto, raramente tem a ver com preguiça. Ela surge da sobrecarga mental, do excesso de possibilidades, do medo de não corresponder ao próprio padrão interno. Quanto maior o potencial percebido, maior pode ser o bloqueio diante da execução.

Já a síndrome do impostor aparece como uma voz constante que invalida conquistas: “Foi sorte”, “qualquer um faria”, “logo vão perceber que não sou tudo isso”. Mesmo com histórico de competência, o reconhecimento não se sustenta internamente.


Esse trio, autocobrança, procrastinação e impostor, cria um desgaste emocional profundo. O indivíduo se esforça mais do que a média, mas sente que está sempre em dívida consigo mesmo.


Quando o ambiente invalida o potencial


Outro fator importante no sofrimento emocional da dupla excepcionalidade é o ambiente, especialmente o profissional.

Muitos adultos relatam dificuldades em contextos de trabalho formal:rotinas repetitivas, pouca autonomia, hierarquias rígidas, baixa abertura para ideias novas. Não raro, suas contribuições são vistas como “excesso”, “complicação” ou “ameaça”.


Com o tempo, isso gera invalidação intelectual e emocional. Para se manter no sistema, o indivíduo passa a reduzir ideias, silenciar questionamentos ou trabalhar além do limite para provar valor. A produtividade se torna uma forma de defesa  até que o corpo e a mente não se sustentam mais.

Nesses casos, o burnout não surge por falta de competência, mas por incompatibilidade entre o funcionamento interno e o ambiente externo.


Solidão intelectual e social


A sensação de solidão também aparece com frequência em adultos com dupla excepcionalidade.Não se trata, necessariamente, de falta de interesse por pessoas, mas de cansaço social.


Conversas muito superficiais, ambientes barulhentos ou relações pouco estimulantes podem ser desgastantes. Muitas vezes, há dificuldade em encontrar pares com quem exista troca intelectual ou emocional significativa.


Com o tempo, o isolamento pode se tornar uma forma de proteção.O indivíduo se recolhe, não porque não gosta de gente, mas porque precisa preservar energia. Ainda assim, a sensação de não pertencimento permanece e pode afetar a autoestima e os vínculos.


Infográfico mostrando o ciclo da exaustão na dupla excepcionalidade, com hiperfoco, autocobrança e esgotamento emocional.
Este infográfico se inspira em conceitos como sobre-excitabilidade e intensidade cognitiva e emocional (Dabrowski), nos estudos sobre dupla excepcionalidade (Baum, Reis & Burke) e nos modelos de exaustão emocional e burnout (Maslach & Leiter), além de contribuições de autores brasileiros como Roama-Alves e Nakano.

Por que nem toda pessoa com dupla excepcionalidade sofre da mesma forma


É importante dizer: nem toda pessoa com dupla excepcionalidade vivencia essas dores da mesma maneira.

O impacto emocional varia conforme múltiplos fatores:

  • contexto familiar e social

  • ambiente de trabalho ou estudo

  • acesso a reconhecimento e suporte

  • história de vida e experiências anteriores


Algumas pessoas conseguem se autorregular melhor; outras sentem os efeitos de forma mais intensa. Por isso, generalizações não ajudam e muitas vezes afastam quem mais precisa de compreensão.


Entender a dupla excepcionalidade não é encaixar alguém em um rótulo, mas compreender como aquele funcionamento específico se manifesta naquela vida concreta.


Quando buscar uma avaliação neuropsicológica


Muitos adultos chegam à avaliação neuropsicológica depois de anos tentando “dar conta sozinhos”.O que buscam, na maioria das vezes, não é um diagnóstico, mas clareza.


A avaliação neuropsicológica permite compreender como a atenção, a memória, o raciocínio e a regulação emocional funcionam em conjunto. Ajuda a nomear padrões, aliviar a autocrítica e construir estratégias mais alinhadas com a realidade interna da pessoa.


Avaliar não é reduzir alguém a um laudo.É oferecer uma leitura integrada do funcionamento cognitivo/emocional e, muitas vezes, abrir espaço para uma relação mais gentil consigo mesmo.


Um convite à compreensão


Viver com dupla excepcionalidade pode ser intenso, cansativo e, por vezes, solitário.Mas também pode ser profundamente transformador quando há compreensão e apoio adequados.

Se você se reconhece nesse movimento entre alto potencial e exaustão, talvez o próximo passo não seja se exigir mais, mas entender melhor como você funciona. Dar nome ao que se vive não limita. Ao contrário: costuma ser o início de uma vida mais consciente, possível e leve.



 
 
 

Comentários


bottom of page